Em busca do tempo perdido

O Brasil possui cerca de 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. As perspectivas para eles são cruéis. Desocupação, na faixa de 15 a 29 anos, saltou de 49,4% para 56,3%.

Será o Brasil hoje o Cronos que engole os seus próprios filhos? Que os afasta da existência a que têm direito: o de ser feliz; o de deixar o brilho dos olhos a procurar o infinito; o de plantar e colher sonhos e vida plena? Há tantos jovens que olham o horizonte e nada encontram. Estão atrás de si mesmos e de algo para acreditar. Eles buscam os caminhos negados, sejam eles perfeitos ou imperfeitos. Procuram a rosa dos ventos.
O Brasil possui cerca de 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos. As perspectivas são cruéis: desemprego, educação e saúde precários. Pesquisa da FGV Social alerta que os jovens estão decepcionados com a atual situação do País. Metade deles quer deixar o Brasil. Também pudera: 27,1% nem trabalham e nem estudam; 70% têm alguma dificuldade de encontrar trabalho; 51,9% vê o Brasil como um país pobre. Somos o pior cenário para os jovens na América Latina.
Os retrocessos trabalhistas, previdenciários e sociais atingiram, em cheio, essa camada da população. A perda de renda foi cinco vezes maior para jovens de 20 a 24 anos; sete vezes maior para adolescentes que trabalham. A pandemia não poupou ninguém. Nesse período, a desocupação, na faixa de 15 a 29 anos, saltou de 49,4% para 56,3%. Ainda, segundo a pesquisa, os jovens demonstram enorme desapontamento com um “país que não cresce”.
A coordenadora da pesquisa, Mariana Resegue, aponta que esses jovens estão despertando para a realidade atual do País: “Há um sentimento de exclusão e de preconceitos dirigidos aos jovens periféricos, pobres e negros”. Outra pesquisa (Gallup) demonstra que a aprovação dos jovens a respeito de como o País está sendo governado despencou de 60,6% até meados da década passada para 12,1% mais recentemente.
Os jovens se distanciaram da educação nesta pandemia, ficaram à deriva, isolados por um ano e meio e ainda continuam.  Especialistas apontam que cada ano a menos de estudo pode representar perda de 10% a 15% na renda futura. Estudos do Insper apontam que as perdas futuras para o conjunto nos ensinos fundamental e médio atingirão R$ 700 bilhões e poderão chegar a R$ 1,5 trilhão caso as aulas não voltem em 2021, mesmo que parcialmente.
A desigualdade social é fator determinante para a precarização do ensino. Os favorecidos são os alunos considerados ricos; os pobres ficam jogados ao léu, sofrem a duras penas. Há um relatório da OCDE que faz uma ampla radiografia. Não há estatísticas exatas, o que se sabe é que são milhares. Os chamados órfãos da pandemia, filhos que perderam os pais ou os responsáveis para o vírus, estão aos poucos assimilando a situação. Eles tentam reconstruir a vida com a ajuda de familiares e amigos. Temos que olhar para esses jovens.
Do ponto de vista de ações legislativas, apresentamos o PL 2528/2020, que prevê pelo menos 5% das vagas gratuitas em cursos técnicos e programas de educação profissional do Sistema S para adolescentes órfãos, com idade entre 14 e 18 anos. O projeto prevê também uma alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente. As entidades que desenvolverem programas de acolhimento familiar ou institucional deverão adotar uma preparação gradativa dos adolescentes órfãos, com ênfase no ensino técnico e na educação profissional, diretamente ou via convênio com o Sistema S, entidades filantrópicas e organizações da sociedade civil.
O Estado precisa dar atenção aos jovens. Estabelecer políticas públicas de trabalho, renda, saúde, segurança, educação, acesso às novas tecnologias. É muito triste ver a nossa juventude sem as mínimas condições de estudar pelo sistema remoto. Investir nos jovens é acreditar no País, no presente e no futuro, no crescimento e no desenvolvimento com sustentabilidade. É esperançar oportunidades aqui mesmo.

Fonte: Artigo do Senador Paulo Paim publicado anteriormente no Sul 21

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