Negros e mulheres são maioria entre trabalhadores de enfermagem mortos pela covid

Raio X feito por estudiosos traça perfil de profissionais e destaca também recortes de idade e classe social

Um estudo divulgado pela revista Ciência e Saúde Coletiva, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), mostra que 59,5% dos enfermeiros e 69,1% dos auxiliares de enfermagem que morreram de covid-19 durante a pandemia eram mulheres. Além disso, um recorte de raça mostra que, no primeiro grupo, 51% dos profissionais eram pretos e pardos enquanto 31% eram brancos. Entre auxiliares e técnicos, 47,6% eram pretos e pardos e 29,6% eram brancos.  

Intitulado “Óbitos de médicos e da equipe de enfermagem por covid-19 no Brasil: uma abordagem sociológica”, o levantamento foi publicado este mês pela revista, que desde 1996 veicula discussões científicas, resultados de estudos e outras produções do tipo.

A pesquisa foi feita com base em dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e de estudo sobre o inventário de óbitos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), considerando mortes por covid ocorridas entre março de 2020 e março de 2021. O contingente investigado incluiu 622 médicos, 200 enfermeiros e 470 auxiliares e técnicos de enfermagem.  

A coordenadora da pesquisa, Maria Helena Machado, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, afirma que há subnotificação dos casos no país. “Há uma subnotificação muito acentuada, marcadamente deliberada de não se ter claramente por parte  dos órgãos públicos a divulgação de dados de adoecimento e óbitos dos profissionais de saúde de modo geral”, expõe.

Médicos e trabalhadores da enfermagem são predominantes no conjunto de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), motivo pelo qual respondem por 72,5% do total da força de trabalho na rede pública. São, ao todo, mais de 2,9 milhões de pessoas envolvidas nas atividades dessas duas áreas. O segmento de enfermagem engloba enfermeiros, auxiliares e técnicos.

Desigualdade

O pesquisador Neyson Pinheiro Freire, que atuou no levantamento pelo Cofen, afirma que a predominância de negros e pardos reflete o grande número de profissionais com essas características atuando na profissão. Entre auxiliares e técnicos de enfermagem, por exemplo, pretos e pardos juntos respondem por 57,4% dos trabalhadores, segundo dados colhidos em 2013 pela pesquisa “Perfil da Enfermagem no Brasil”, feita pela Fiocruz em parceria com o Cofen. Como a maioria desses profissionais tem apenas segundo grau completo, o recorte acaba apontando também para questões de desigualdade social.

“Esse profissional, de menor renda, está sujeito à desigualdade dentro e fora do trabalho, o que acaba se refletindo num índice de contaminação maior. Ele também teve menos acesso a Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), muito provavelmente, e é um profissional que esteve mais exposto em transporte público e de outras formas também”, destrincha Freire.  

Idade

Analisando o contingente de mortos a partir de um recorte etário, os pesquisadores observaram que cerca de 80% dos enfermeiros, técnicos ou auxiliares de enfermagem vitimados pela covid tinham até 60 anos. Enquanto isso, 75% dos médicos que perderam a vida pela doença tinham idade acima dessa marca.

Maria Helena Machado destaca que essa diferença se dá por conta de descompasso entre algumas características das duas profissões. “Há uma diferença estrutural das equipes no que diz respeito à formação, à inserção no mercado de trabalho, à modalidade da inserção no mercado, à jornada e ao desenrolar da vida profissional deles ao longo da sua vida produtiva”, observa.

Ela afirma que médicos costumam ter carreiras mais longas porque, entre outras coisas, chegam a ficar cerca de dez anos em formação acadêmica e se relacionam de forma diferente com o mercado de trabalho, muitas vezes abdicando da condição de assalariados nas esferas pública e privada para seguirem carreira de profissionais liberais. Diante disso, não é incomum encontrar profissionais da categoria precarizados e sujeitos à pejotização e à uberização do mundo do trabalho.

“Isso faz com que eles tenham a noção de que são profissionais liberais, portanto, entram no mercado mais tardiamente e se mantêm longamente no mercado. É muito comum encontrar um médico de 70, 80 anos de idade ainda trabalhando”, pontua.   

Entre a categoria médica, os homens vitimados pela covid representam 87,6% do total contra 12,4% de mulheres. Os percentuais diferem da tendência observada no segmento da enfermagem porque, segundo os pesquisadores, na medicina, as mulheres só passaram a ser maioria em 2009. Assim, os profissionais mais velhos – grupo de destaque no volume de óbitos – são especialmente homens. Já na enfermagem 85% dos profissionais são mulheres. A respeito do recorte de cor e/ou raça, não há dados disponíveis entre os médicos, segundo a pesquisa da revista Ciência e Saúde Coletiva.

Regiões

Por fim, chamou a atenção dos estudiosos o recorte local. Ao analisar os dados, a equipe concluiu que há discrepância considerável entre as diferentes regiões do Brasil, com destaque para a situação do Norte, que tem a menor quantidade de médicos e profissionais de enfermagem no país. Lá estão somente 4,5% dos médicos, 7,6% dos enfermeiros e 8,7% dos técnicos do Brasil, mas os percentuais que tratam da perda de vidas são considerados salientes: respectivamente, 16,1%, 29,5% e 23,2% em relação ao total.

Fonte: Brasil de Fato

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